26/04/2013

# ela, sou eu.




Dormia com os estores das janelas do quarto abertos, gostava de sentir a claridade entrar-lhe pela janela mal o sol começava a raiar. Até porque conseguia dormir, mesmo com o quarto repleto de luz. De verão, um lençol a tapar-lhe metade das pernas bastava-lhe, mas necessitava dele. Dormir sem sentir nada por cima, fazia-lhe confusão. Claro que de noite, onde já não ia o lençol, espalhado pelo fundo da cama ou até mesmo pelo chão. Ninguém lhe podia tirar a sua - tão preciosa - almofada. Não sabia dormir sem ela. Como é que se dorme sem um amparo para a cabeça? Claro que na falta de um peito aconchegante onde encostar a cabeça e relaxar no mundo dos sonhos, a almofada lá lhe fazia os confortos possíveis. Quando se deitava com pouco sono, era frequente rodar a almofada de lado para lado, à procura da parte "fresca". Até no inverno. Podia dormir com cobertores até ao pescoço, mas sufocar-lhe a cara com calor, não! Sabia mal. Não ressonava, diziam-lhe.
O seu quarto era o refúgio das suas inquietações. Não passava lá muito tempo, até eram raras as vezes em que passava horas e horas lá. Mas... Quando o sufoco para chorar apertava até não dar mais, corria discretamente para lá, para que ninguém a visse ou ouvisse naquela imagem de fraqueza.
Não gostava que a vissem chorar. Não gostava de chorar em frente a ninguém, porque as reações eram sempre duas: ou nunca ninguém sabia o que dizer, ou começavam a chorar também. E odiava fazer alguém chorar, fosse quem fosse. Só houve uma vez em que chorou conscientemente à frente de outra pessoa, deixando o sufoco cair todo ao chão, ali, naquele momento. Nunca se arrependera.
Tantos tiques e manias em tão pouco tempo. Um dia conto-vos mais sobre ela. Porque ela? Sou eu.

14/04/2013

# um dia, a verdade vai-te magoar.



Não queria ser eu a dizer isto, nem queria dizer de forma tão fria algo que, no fundo, é cruel. Mas... Tu vais ficar sozinha, sabias? Porque enquanto as tuas promessas não passarem de palavras ditas ao vento, tu não vais ser ninguém com palavra de valor. Vais continuar a abandonar todas as pessoas que gostam de ti e que querem cuidar de ti. E, no fim, vais perceber quantas vezes devias ter-te mantido fiel ao que dizias, e cuidar realmente daquilo a que chamavas de amizades.
Uma amizade nunca vai ser uma estrada de uma via só. É suposto existirem duas, para que as pessoas possam prosseguir lado a lado. Agora explica-me, porque é que insistes em manter apenas uma via? Já alguém te explicou que quereres fazer tudo como te apetece, dá mau resultado? As pessoas não vão estar sempre predispostas a serem usadas por ti, a estarem lá apenas quando tu entenderes que lhes deves dar um pouco da tua tão efémera atenção. O mundo não gira à tua volta, pequena. E receio que no dia em que perceberes que vais perder as pessoas definitivamente da tua vida, te vais lamentar. E aí? Aí vai ser tarde demais. Porque mesmo eu não acreditando em "tarde demais", as pessoas aprendem a dizer "Chega.". E esse vai ser o teu fim.


E porque na amizade também há amor,
ficas a saber que me partiste o coração.
(Pela última vez.)